Coleção de Textos

19 de out. de 2011

Crônica Amarela

Eu tenho uma vida pacata. Uma vida e tanto. 


Acredite, minha vida é perfeita. A sua também é... todas as vidas são perfeitas, simplesmente porque vivos estamos.


Hoje eu caminhava pela rua, perdido nos meus pensamentos... Ah! Pensamentos são cinzas. São cinzentos, são cinzantes: tudo fica cinza quando você se perde em seus pensamentos. Ainda mais quando você caminha pela rua cinza, com pessoas cinzas e cinzas no ar.


Eu não aguentava mais! Eu não aguentava mais o quê? Eu aguentava sim!


E mais uma tarde ia-se comigo remoendo assuntos pequenos enquanto coisas maiores e mais simples rolavam no mundo.


Quando eu passei em frente ao salão de treino de Tae-kwon-do, eu vi na sacada um menino cego. Eu sei que ele é cego. E eu tomei de novo um soco na barriga, assim como quando da vez em que o vi fazendo exercícios na academia que eu frequentava.


Minha vida se tornou pequena. Eu entrei num exercício de sadismo de pensar diversas vezes o quão insuportável seria pra mim viver a vida sem minhas vistas. E assim eu tendi a pensar que a vida dele seria menor que a minha, mas não! A dele era maior. 


Uma criatura com uma vida maior.


Nessa hipocrisia de me diminuir, de menosprezar meus sentidos, minha vida; uma vez ou outra eu trombo uma figura dessas na rua... dessas que compõem um soco na boca do meu estômago. E aí eu vejo que eu me sinto mal à toa. Mas também não me fazem sentir bem, apenas pensativo.


Nada diminuía minha aflição: ao ver ele na sacada - ele com seus olhos cegados olhava o céu, tomava um ar e ajeitava o seu roupão de luta amarrado com uma faixa amarela.

2 comentários:

  1. "Ainda mais quando você caminha pela rua cinza, com pessoas cinzas e cinzas no ar." Só que tem sempre um amarelo pra se destacar! Curti, viu...

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  2. Presenciar a dor dos outros ameniza a nossa! Que o que cada um chama de Deus dê conforto aos corações aflitos.

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